Paisagem cultural de Niterói

Extraímos do artigo “Marcos da Paisagem Cultural de Niterói“, publicado no Fórum Patrimônio, de 2012*, alguns trechos interessantes que explicam o conceito de “paisagem cultural”, no exemplo da cidade de Niterói e de acordo com os princípios adotados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN. Esse artigo foi escrito por arquitetas e possui, portanto, um enfoque mais técnico sobre esse assunto. Os grifos são nossos:

“O reconhecimento da Paisagem Cultural de Niterói está apoiado em um tripé inseparável, a Cidade de Niterói, a Baia de Guanabara e a Cidade do Rio de Janeiro.

A entrada da Baia de Guanabara […] possui seus limites demarcados pelos pontões da cidade de Niterói com o maciço do Morro do Pico e da cidade do Rio de Janeiro com o maciço do Morro do Pão de Açúcar. Essas formações rochosas constituíram importantes pontos de defesa com construção de fortificações [v. sistema de defesa da entrada da baía em 3, 4 níveis], além de se destacarem como marcos de visualização da paisagem cultural urbana das duas cidades.

Forte de Gragoatá, sem data.

Na cidade de Niterói voltada para a Baía, após vários aterros [ex. Aterro da Praia Grande na década de 1970], encontram-se os bairros Ponta da Areia, Centro, Gragoatá, São Domingos, Praia Vermelha, Praia das Flechas, Praia de Icaraí, com seus monumentos naturais como a Pedra do Índio e a Itapuca, as Enseadas de São Francisco, Charitas e de Jurujuba.

Publicação sobre o projeto de saneamento do antigo mangue de São Lourenço e construção do porto de Niterói, 1927.

Uma avenida beira-mar foi idealizada desde os primeiros prefeitos niteroienses, como avenida para uso turístico e esportivo [v. esportes náuticos, como remo e vela], que com o tempo ligaria os bairros costeiros da baía com os bairros oceânicos da cidade como Itaipu, Piratininga, Camboinhas, Itacoatiara. Essa avenida litorânea viria a propiciar uma paisagem onde a natureza se destacaria, dando beleza e qualidade ao ambiente urbano promovendo pontos de apreciação e fruição da Baia de Guanabara e também no litoral oceânico, criando um outro diferencial de apropriação da paisagem na cidade.

Cais do Gragoatá, em 1911, perdido com o aterro da Praia Grande.

A cidade de Niterói teve sua origem na localidade que hoje é reconhecida como bairro de São Lourenço nas redondezas da Rua São Lourenço, com a delimitação e implantação da Aldeia do Índio Araribóia (aldeia São Lourenço dos Índios), que se estendia pela área hoje ocupada pelo Centro, Gragoatá e São Domingos. Mais tarde, na década de 1860, é que a povoação de Niterói foi mais diretamente ligada ao bairro de Icaraí, com a abertura de uma pedra que se interpunha entre os bairros do Ingá e Icaraí. Mais tarde, a Estrada Fróes interligou Icaraí a São Francisco alongando mais um pouco a avenida litorânea.

O arco entre Ingá e Icaraí, em foto atribuída a Julius Mill. Foi demolido para facilitar a passagem entre os dois bairros.

 

O chamado canto do rio, antes da abertura da estrada Fróes, em 1910.
A Praia de Icaraí em 1904 e 1930.

A cidade começou a se desenvolver urbanisticamente com os planos de arruamento do atual Centro e Icaraí, desencadeando a ocupação desses bairros, que ganham novas praças, jardins, além de construções, como os primeiros arranha-céus com atividades culturais, como o Cassino Icaraí (1936) e Cinema Icaraí (1944), no caso do bairro de Icaraí.

A vida social, artística e cultural do bairro conquistou o glamour, dinamismo e intensidade de uma sociedade em plena atividade social urbana. O ambiente natural e essas atividades deram forma e característica à vida na cidade de Niterói ao longo do tempo. Com a natureza rica e evidenciando o uso dos espaços livres ao longo do mar, as atividades de rua tornaram-se hábitos da população, como caminhadas, passeios e encontros que ocorriam diariamente. […].

A cidade de Niterói é conhecida pela qualidade de vida. Por ter sido capital do estado foi palco de acontecimentos sociais, culturais e políticos intensos. É uma cidade privilegiada também pela sua notável vista da Baia de Guanabara com a silhueta fantástica da cidade do Rio de Janeiro ao fundo. E agora se projeta, internacionalmente, como museu aberto das obras arquitetônicas do arquiteto Oscar Niemeyer.

Projeto Caminho Niemeyer, em foto recente.

Em Niterói sempre existiu uma vocação cultural e turística da área litorânea da cidade explorada pelos gestores de diversos governos municipais, desde os primórdios de sua história […].

* Autoras: Marlice Azevedo, Denise Monteiro e Silvana Valente dos Santos, arquitetas da UFF-PPGAU, artigo publicado na Revista “Fórum Patrimônio”, Belo Horizonte, v.5, n.2, jul/dez 2012


 

 

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