A história de um bairro chamado Itacoatiara

O artigo de hoje é sobre um bairro niteroiense, da região das praias oceânicas, bastante conhecido entre os surfistas: Itacoatiara.

Ita (pedra) + cuatiara (risco, desenho, inscrições) duas palavras da língua Tupi que juntas significam “pedra escrita” ou “pedra riscada” são a origem do nome deste recanto originalmente habitado pelos índios Tamoios.

Histórico

(…) Era a década de 30 e enquanto na Europa governos totalitários, militaristas, com ideias expansionistas, preparavam uma grande guerra mundial, aqui no Brasil um descendente de austríacos dividia seu tempo entre a comercialização do espaço de propaganda dos bondes e troleys da Light e os fins de semana em Cabo Frio.

O empresário se deleitava ao sobrevoar o selvagem litoral entre o Aeroporto Santos Dumont e o aeroporto de Cabo Frio e sempre se surpreendia com a exuberante vegetação de uma pequena praia, diferente de todas as demais, com árvores frondosas ao invés de rasteira restinga.

Os pilotos sempre tinham que verificar o nome deste lugar: Itacoatiara! Até o dia em que um deles demonstrou conhecer o lugarejo pertencente ao município de São Gonçalo.

Mathias Sandri encarou a viagem por terra, via Várzea das Moças para ver de perto o seu pedaço de Paraíso.

Não se decepcionou e resolveu comprar o lugar. No dia 19 de agosto de 1938 pagou 20 contos de réis a Dona Etelvina Elisa de Souza e em 07 de outubro de 1938 pagou mais 5 contos de réis a João neves de Souza e sua esposa, Dona Maria de Lourdes Costa de Souza, passando a ser dono de aproximadamente 70% do bairro sendo os demais 30% pertencentes a Francisco Felício.

Loteando

Construiu uma casa, a primeira de 3, conhecida como a casa rosada, na rua que viria ser a das Orquídeas e se instalou com sua esposa Dona Maria Sandri, na fazendola de natureza privilegiada.

A 2a. guerra mundial estoura e boatos surgem, um deles dizia que Getúlio Vargas ia desapropriar todos os imóveis litorâneos pertencentes a alemães e seus descendentes, prevenindo-se contra possíveis comunicações com navios de guerra inimigos. Temendo esta ação, Mathias decide lotear e vender sua terra.

Cuidadosamente dividiu a terra em lotes usando como marco nos terrenos, árvores e rochas, deu nome de flores às ruas, perfurou um poço semi-artesiano e canalizou a água para uma grande caixa d`água para daí ser distribuída para todos os seus lotes.

Ainda hoje podemos ver o poço na praça dos Tucuns e ruinas da caixa d´água no caminho do Parque da Serra da tiririca.

Escolhendo a vizinhança

Os primeiros compradores eram do seu círculo de amizades, frequentadores do Jockey Club do Rio de Janeiro e do Copacabana Palace, eram banqueiros, diplomatas e muitos estrangeiros. Mathias entrevistava todos os candidatos a proprietários e selecionava conforme a sua empatia e após se certificar de que não eram meros especuladores, mas realmente queriam uma casa de praia para seu próprio uso. Para incentivar o veraneio, Mathias fundou o Pampo Club, patrocinou a construção, projeto de Oscar Niemeyer que recebeu um lote em pagamento, na Rua das Papoulas, o lote 1 da quadra VII.

Hoje, Niemeyer não reconhece mais a construção como projeto seu por terem efetuado, ao longo dos anos, várias modificações não autorizadas por ele. Mas sua marca serviu de inspiração e modelo influenciando o projeto de muitas casas naquela época.

Os novos proprietários de terrenos recebiam o título de sócio, podendo usufruir da piscina, campo de futebol e das festas e reuniões.

A piscina era um luxo, levando-se em conta de que não havia água encanada, nem luz.

A luz chegou após uma solicitação de Mathias a Cia Brasileira de Energia Elétrica, em junho de 1958. Já o sistema de distribuição de água, após alguns anos, começou a ficar muito oneroso e difícil e os moradores começaram a perfurar poços em suas residências, uma vez que já tinham eletricidade para operar as bombas.

Durante este período, Mathias construiu e morou em mais duas casas, a segunda também era na Rua das Orquídeas e a terceira e última no Morro das Andorinhas, na Prainha, com direito a jardins projetados por Burle Max e um sistema de captação de água de chuvas das encostas e dos telhados que abastecia toda sua casa.

Em 1974, com a inauguração da Ponte Presidente Costa e Silva, ligando o Rio de Janeiro à Niterói, Itacoatiara começou a mudar, deixando aos poucos de ser lugar de veraneio e se tornando um bairro do município niteroiense.

(Fonte: Página “Niterói Antigo”, no Facebook, 6/12/2015)

Foto acima: Itacoatiara na década de 1930.

A Praia de Itacoatiara ainda conservando a restinga. Muitos chegavam até ela de bicicleta, a locomoção mais acessível. No costão só existia a casa do Sr. Mathias, que pode ser vista com um pouco de dificuldade à direita. Graças a ele Itacoatiara era um paraíso. Uma espécie de síndico do bairro, nada se construía se não tivesse a sua aprovação. Comércio, nem pensar, além de outras imposições. Sua esposa dedicava-se à cultivação de rosas, era a maior e mais linda da cidade. O senhor Mathias era dono de uma empresa que fazia publicidade em bondes no Rio de Janeiro. Entre elas, uma ficou famosa e dizia: “Veja ilustre passageiro / o belo tipo faceiro / que você tem a seu lado. / E, no entanto, acredite / quase morreu de bronquite / salvou-o o Rum Creosotado.” (Foto: Carlos Ruas, s/d)
Década de 1970, s/a.
Década de 1970, s/a.
Itacoatiara e a Pedra do Elefante, vistas do morro das Andorinhas. Década de 1950, s/a. (Fonte: Grupo História de Niterói, Facebook)


 

 

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