“Portugal Pequeno”

“Portugal Pequeno”

Por Divaldo de Aguiar Lopes *

A Ponta da Areia, trecho de Niterói, que deve seu nome à conformação ali da praia, foi, durante muitos anos, lugar abandonado e dominado de rala vegetação que sôbre a praia se espalhava pelo mar a dentro.

Depois de 1819, quando foi criada a Vila, esse pitoresco local passou a evoluir e dada a sua excelente posição para os que se dedicavam à pesca, esses passaram a habitar as ilhas vizinhas, povoando-as e fazendo-as portos de embarque e desembarque. Os portugueses radicados na Praia Grande, foram os primeiros povoadores, de onde o chamar-se, ainda hoje, o referido bairro, de “Portugal Pequeno”, expressão antiga que traduz a existência de seu elevado número de moradores oriundos da pátria de Camões e nossos bons e cordiais amigos.

Devido à sua localização geográfica, lá se estabeleceram alguns pequenos estaleiros, dedicados a reparos e construção de embarcações de reduzidas dimensões.

O apogeu da localidade teve seu início quando, em 1846, o grande Ireneo Evangelista de Souza, cuja vida é uma história maravilhosa de tenacidade e dinamismo, característica do acendrado amor próprio aos que vivem trabalhando pela grandeza da terra onde nasceram, comrpou o modesto estabelecimento da firma Carlos Coleman & Cia, e dele fez um dos mais importantes estaleiros navais do tempo do Império. De lá sairam máquinas para engenhos de açucar, apetrechos para serrarias, guindastes para navios mercantes, barcos e navios de guerra e mercantes, para particulares e estrangeiros. Até o histórico vapor Marquês de Olinda que fôra aprisionado pelos paraguaios quando levava à bordo o Coronel Carneiro de Campos rumo a Mato Grosso, onde ia assumir, em 1864, o Govêrno Provincial, saiu dos estaleiros de Ireneo E. de Souza. Deve-se pois a êsse glorioso brasileiro, Barão e depois Visconde de Mauá, o impulso e a grandeza industrial da Ponta da Areia. Em ? anos de existência os citados estaleiros lançaram ao mar cerca de 72 navios. Êsse industrial perdeu em tal empreendimento a sua fortuna. Hoje a atual rua Barão de Mauá faz o seu nome em simplória homenagem ao grande impulsionador da indústria naval naquele trecho da cidade. Por ocasião da trágica e inglória revolta da Armada, teve a sua principal via pública transformada em trincheiras que receberam e trocaram muitos “balaços” com os revoltosos. Por ali as forças legais embarcaram e desembarcaram em elevadíssimo número, e, nesse mesmo trecho e em outros, desembarcaram os revoltosos para tentar apossar-se da cidade e para sofrer terrível derrota no sangrento combate da madrugada do triste 9 de fevereiro de 1894.

Quando os já mencionados estaleiros foram perdendo a sua importância, surgiu um comércio composto de pequenas fábricas e armazéns-trapiches, hoje ainda nessa localidade, se encontram o dique Lahmeyer, Oficinas da Cia. Comércio e Navegação e outras nas ilhas vizinhas do litoral.

Na administração Alfredo Backer o dinâmico Prefeito Dr. João Pereira Ferraz introduziu-lhe inúmeros melhoramentos, e o “Portugal Pequeno” é hoje logarejo simples e pitoresco, tendo sempre atracado no seu longo cias pequenas canôas, barcos e lanchas, balançando-se ao sabor dos movimentos do mar, e à noite ouvem-se pelos cafés e bares fados cantados ao som das guitarras dos portugueses que parecem adotar, como a própria terra natal, esse trecho do antigo 1º Distrito de Niterói.

(Fonte: Jornal Diário do Comércio, 24/1/1957, via Centro de Memória Fluminense UFF)

 

* Saiba quem foi Divaldo de Aguiar Lopes nesse post.

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