“O ‘super-homem’ e o mergulho na noite

“O ‘super-homem’ e o mergulho na noite

Quarta-feira, 24 de maio, foi dia de mais um Momento Cultural na nossa reunião rotária sobre fatos e causos de Niterói. Foi selecionada uma pequena crônica escrita pelo jornalista Jorge Ferreira.

João Belo corria de costas e ‘Chevrolet”, por causa da cerveja, caiu no mar

Por Jorge Ferreira

Como o bonde e o trem, as barcas também têm seu folclore, seus personagens e suas histórias engraçadas. Muitos dos que diariamente viajam para Niterói por via marítima certamente conheceram, por exemplo, o super-homem João Belo, “o homem que não tem o M na palma da mão” e era “campeão mundial de corrida de costas”. Para provar sua capacidade atlética, João Belo, que sempre pegava a barca no Rio às 17 h, desembarcava em Niterói correndo como um caranguejo e assobiando estrepitosamente. Outro desajustado frequentemente encontrado nas barcas era o célebre Gentileza, um velho de longas barbas que se dedicava a pregar o amor e a paz, enquanto advertia as moças de minissaia.

No tempo em que as bascas trafegavam ininterruptamente, muitos bêbados nelas viajavam de madrugada. Um desses era Carlos Alexandre Magno, que, apesar do nome histórico e heroico, era mais conhecido como Chevrolet. Numa noite de inverno, Chevrolet chegou à estação de Niterói e apressadamente entrou na barca por uma das portas laterais. Com o senso de orientação um tanto prejudicado, prosseguiu em linha reta e saiu pela outra porta lateral, despencando no mar. Com a consciência recuperada pelo choque com a água fria, agarrou-se às colunas de madeira que sustentam o cais. Os marinheiros o recolheram e acenderam um fogo para aquecer o náufrago.

Outros, também por pressa, caíram no mar, ao tentar alcançar com um salto a barca que desatracara. Mas, uma tarde, talvez em busca só de aventura, uma velhinha atirou-se ao mar, a maio caminho entre Rio e Niterói, e pôs-se a nadar. O arrais fez a barca dar meia-volta e recolheu a audaz nadadora.

Comum era também, quando a barca não parava, os boêmios adormecerem e viajarem repetidas vezes nos dois sentidos. No início da década de 70, quando não havia a Ponte Rio-Niterói, um passageiro sonolento (digamos assim) fez a viagem de ida e volta. Acordou assustado e, acreditando estar no Rio, entrou rapidamente em um táxi, pedindo ao motorista que o levasse a Copacabana. Ouviu como resposta que a corrida sairia muito cara e, surpreso, perguntou por que, ao que lhe disse o motorista que estavam em Niterói e seria preciso dar a volta por Magé.

Veja o texto original (infelizmente não conseguimos identificar a data da publicação e o jornal):

 

 

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“O Imperador na Praia Grande”

“O Imperador na Praia Grande”

“Croniqueta da cidade”, por Divaldo de Aguiar Lopes

O nosso brilhante imperador D. Pedro I, que foi incontestàvelmente uma figura arrebatadora e sem igual nas páginas da nossa história pátria, era um admirador de Niterói. Via, em aquí, um recanto delicioso, já conhecido, (pois cá estivera em 1816, com seu pai), situado a alguns minutos, em galeota, da Côrte, movimentada e repleta de interesseiros, e com a atmosfera quase irrespirável da burocracia, que sufocava o seu irrequieto espírito de homem dinâmico e dado às mais intimoratas atividades.

Na Vila Real da Práia Grande encontrava aprazível e convidativo lugar para refazer-se das fadigas da sua agitada vida política e romântica.

Mesmo assim, às vêzes, se fazia acompanhar da Marquêsa de Santos, o que fôra durante muito tempo ignorado na Côrte, onde para todos os efeitos S. M. estava na Vila, assistindo a exercícios militares no Campo de São Bento…

Em 1824, a pacata povoação começou a movimentar-se, e todos os modestos habitantes não cabiam em si de contentes, pois o príncipe era querido e sempre acolhido com fidalguia. Dessa feita resolvera passar o São João, gozando os aspéctos típicos dêsse festejo de sabor nacional e num cenário que lhe dava verdadeiro romantismo.

E, o passou no prédio situado na Rua da Práia Grande (Visconde do Rio Branco), esquina da do Imperador (Marechal Deodoro) cedido, por gentileza e bajulação de um rico proprietário que não cansava de apregoar êsse fato, que lhes reverteu em conceito, pois não se elevara de um traficante de negros escravos, enriquecido à custa dêsse infame comércio humano, já nessa época considerado repugnante por alguns habitantes da Vila.

Não gostava da alcunha que o povo lhe impusera — “Cheira”. Esta provinha do curioso hábito do avarento cheirar o dinheiro que recebia, como se pudesse reconhecê-lo por um suposto aroma…

O povo comprimiu-se no dia 25 de junho daquele ano, para assistir no Campo de São Bento, o Imperador passar em revista as tropas, sob o comando do general Joaquim Xavier Curado e grande foi o movimento que agitou a Vila, antes silenciosa e bucólica, quando a caminho do local citado; passaram pelas suas ruas mal calçadas as duas brigadas, com infantaria, cavalaria e artilharia.

O príncipe D. Pedro, sob os olhares embasbacados do povo, após assistir algumas demonstrações das tropas, resolveu mostrar com ares napoleônicos, que era bom comandante, e o povo ouviu então a voz vibrante do seu comando, à qual os soldados obedeciam com exatidão e brilho, enquanto sorria jubiloso o General Curado, orgulhoso das suas adestradas tropas.

À tarde, houve em uma barraca especialmente armada para êste fim, um magnífico jantar com pompa de banquete, no qual tomaram parte generais, comandantes de brigadas e a oficialidade.

Como de costume, houve saudações e brindes ao Imperador, à Imperatriz e a tôda dinastia imperial e à “integridade e constituição do Império”. À cada brinde seguia-se uma salva de 21 tiros. Após o repasto, segundo a praxe, houve por bem S. M. dar beija-mão à oficialidade. […]

(Fonte: Jornal Diário do Comércio, 24/7/1956, via Centro de Memória Fluminense)

Foto de capa: D. Pedro I, Simplício Rodrigues de Sá, 1830. Acervo: Museu Imperial de Petrópolis.

 

* Saiba quem foi Divaldo de Aguiar Lopes nesse post.

A reprodução da croniqueta:

 

 

O Campo de D. Helena

O Campo de D. Helena

Por Fabio Rangel, em Grupo História de Niterói, Facebook (Acesso em 7/2/2017)

Helena Francisca Casimira de Bessa, esposa de Manuel José Bessa, adquiriu as terras no ano de 1794. Fazendeira e proprietária de terras que hoje compreendem partes do Centro da cidade, ficou marcada na história de Niterói por, futuramente, ceder parte de suas terras para a criação da então Vila Real da Praia Grande.

Suas terras abrangiam uma vasta área plana e eram utilizadas, em boa parte, para a plantação de mandioca. Estendiam-se da Rua Marechal Deodoro até próximo ao morro onde existia o Hospital São João Batista e desde o mar até a Igreja de N. Sra. da Conceição, mais especificamente da: “zona circunscrita pela rua direita da Conceição até a base do morro em que está a igreja, vertentes do morro do Buraco da Onça, vertentes do morro do Hospital e a Rua Visconde do Rio Branco que correspondiam às ruas da Conceição, José Clemente, Aurelino Leal, Quinze de Novembro, Capitão Mor, Praça General Gomes Carneiro e a antiga Praça Santo Alexandre.

Primeiramente escolheu-se o largo de S. Domingos para a criação da Vila, mas por ser estreito optou-se pelo campo de D. Helena como ponto inicial da criação da Vila, que além do largo da Memória, recebeu também o Pelourinho (antigo largo do Capim, onde depois foi construída a prefeitura, atual Secretaria de Fazenda), que seria transferido posteriormente para a Praça do mercado que ficava próxima ao Jardim São João.

Em nota publicada no jornal O Fluminense, em janeiro de 1892, encontramos o seguinte relato:

A 13 de maio de 1816, s. a. o primeiro regente devia passar uma revista solemne aos briosos voluntários d’el-rei, prestes a embarcar para Montevidéu.

Escolheu-se a Praia Grande e para lá passaram s. a. sua augusta família, a sua côrte, todas as autoridades civis e militares, os magistrados, o clero e as personalidades mais distinctas da cidade de S. Sebastião; sem contar os curiosos innumeraveis de todas as bandas.

A Praia Grande mostrou-se digna de subida honra e a recompensa não se fez esperar.
O lugar escolhido para esta visita foi o Campo de D. Helena que foi succecivamente conhecido como largo do Pilourinho, Rocio e Memoria.

O largo hoje está dividido em dois, pois outrora comprehendia o que é hoje o do Capim ou Santo Alexandre. […] o lugar primitivamente escolhido para a solemnidade da erecção da Villa foi o largo de S. Domingos que, por estreito deo motivo a se procurar o campo de D. Helena.

No entanto, a relação entre D. Helena e o governo da época não fora tão amigável assim. Alegando existir uma servidão pública em suas terras, a Câmara tomou posse de seu terreno sem audiência e sem o seu devido consentimento. Uma ação judicial foi movida por D. Helena que não viu com bons olhos tal procedimento.

A Câmara se apoderou da parte que correspondia a Praça Santo Alexandre para instalar o Pelourinho mandando retirar por conta própria as cercas dos arrendatários e foreiros que ocupavam as suas terras. Insatisfeita com tal procedimento, D. Helena dirigiu-se ao poder Judiciário e moveu uma ação, finalizada no dia 11 de abril de 1845. Já falecida, sua filha Maria José de Bessa, casada com Gabriel Alves Carneiro saem vitoriosos ao final da ação e acabam doando as terras ao governo municipal.

Complementações:

1. Fabio Rangel: Sobre a servidão que o governo alegava existir, segundo algumas publicações o que ocorreu foi o seguinte: grande parte das terras eram abertas e usadas como passagem de pessoas e animais que iam e vinham do Centro para São Domingos e vice-versa. Apesar de existirem ruas que ligassem as localidades, muitas pessoas encurtavam o caminho atravessando o campo, que com o tempo deixou trilhas e caminhos entre a vegetação. Após a criação da Vila e da utilização do espaço para a criação do Largo da Memória (Praça General Gomes Carneiro ou Praça do Rink), dividiu-se o terreno em quadras e criaram-se ruas ao redor do mesmo, o que fez que, com o que antes era um só terreno, fosse dividido em dois, sendo que o segundo passou a ser chamado de Largo do Capim (também chamado de Largo do Pelourinho e mais tarde Praça Santo Alexandre, atual prefeitura velha). O governo, aproveitando-se da situação se apoderou do local e, além de fazer as praças e largos, inicialmente propostos, retalhou e partilhou os lotes entre quem pudesse investir e construir.

2. Emmanuel de Macedo Soares: A filha cedeu em termos, porque as terras já estavam desapropriadas pelo presidente da província, o futuro Visconde de Sepetiba. E, se não cedesse, perderia muito mais do que o Largo da Memória, porque Sepetiba era carne de pescoço e saiu desapropriando outros terrenos da família na Rua da Conceição, tudo sem direito a indenização, porque pertenciam à sesmaria dos índios de São Lourenço. A história é longa e mal contada […]. O governo nunca dividiu nem loteou nada. Quem loteava a área era Gabriel Alves Carneiro, genro de Helena e procurador da família toda, que pouco antes de morrer conseguiu uma “mutreta” na Assembleia e recuperou parte da área desapropriada, dando origem à divisão do campo em duas praças.

 

 

 

Fundação do Rotary Club de Niterói

Quem realiza pesquisas sobre um determinado assunto em fontes diversas acaba “esbarrando” em textos que aparentemente nada têm a ver com o que está se estudando, mas trazem farto material para novas pesquisas. Assim aconteceu com a “descoberta” do artigo que segue abaixo, versando sobre a fundação do Rotary Club de Niterói, o mais antigo clube rotário da cidade.

Além de um resumo da sua fundação, relaciona seus associados fundadores e respectivas ocupações profissionais. Muitos nomes são de ilustres personalidades da nossa cidade, dos quais destacamos alguns que merecerão um capítulo à parte neste blog.

Como este blog está ligado ao site do Rotary Club de Niterói Icaraí, é interessante compartilhar esse artigo, publicado no grupo “GEROI – Grupo de Estudos de Rotary na Internet”. Vamos ao artigo:

“CONHECENDO MELHOR NOSSA ORGANIZAÇÃO
O MOVIMENTO ROTÁRIO NO BRASIL

Capítulo sétimo

FUNDAÇÃO DO ROTARY CLUB DE NITERÓI

A sessão preparatória para a formação do RC Niterói foi realizada no dia 4 de setembro de 1928, no edifício da Associação Comercial, e foi presidida pelo companheiro Roberto Shalders, e tendo como secretário o companheiro Rodrigo Octávio Filho, respectivamente Presidente e Secretário do RC Rio de Janeiro e nela compareceram figuras de relevo do meio social: Alexandre Queiroz (Farmácia),
Almir Madeira (Instituições Penais),
Ananias Pimentel de Araújo (Tabelionato),
Antônio José Pereira de Barcelos (Drogas – Distribuição),
Antonio Pedro Pimentel (Medicina – Clinica), [*1]
Arlindo F Leite Pinto (Construção),
Antonio Roussoulières (Registro de Imóveis),
Armando Carreira Lassance (Governo – Fiscalização Estrada de Ferro), [*2]
Carlos Castrioto de Figueiredo e Mello (Banco Comercial),
Desidério de Oliveira Júnior (Governo Estadual – Finanças),
Eduardo C de Figueiredo Lima (Fazenda em Geral),
Eduardo Luiz Gomes (Instrumentos Musicais),
Francisco Bittencourt Silva (Educação – Ginásio), [*3]
Henrique Castrioto Figueiredo e Mello (Educação – Universidade),
José Telles Barbosa (Jornalismo),
Manuel d’Azevedo Falcão (Materiais de Construção),
Manuel H Silva (Lenha),
Manuel Pereira Paixão (Indústria do Gás),
Manuel Miranda Rosa (Jornalismo),
Mário Alves (Jornalismo),
Manuel Miguelote Vianna (Bacteriologista), [*4]
Nelson A Pereira (Medicina – Cirurgia),
Nilo A Peçanha (Sal – Distribuição),
Othon Leonardos (Frutas Cítricas),
Roberto R Mendes (Belas Artes – Pintura). [*5]

Nesta reunião foi aclamado, como primeiro presidente, Carlos Castrioto de Figueiredo e Mello, que indicou José Telles Barbosa para a secretaria e Desidério de Oliveira Junior para a tesouraria.

Ainda na reunião preparatória foi constituída uma comissão que ficou encarregada de elaborar os Estatutos do novo clube.

No dia 08 de setembro de 1928 reuniram-se, no sei almoço inicial, os fundadores do RC Niterói e foram tomadas as algumas deliberações:

a) aprovação dos Estatutos em conformidade com os que regiam o RC Rio de Janeiro, apenas com algumas ligeiras adaptações;
b) realização de jantares todas as quintas-feiras, às 19,00 horas;
c) jantar no dia 17 de setembro, para receber o Governador do Distrito 63;
d) constituição da primeira diretoria, que ficou assim composta:

Presidente Carlos Castrito de Figueiredo e Mello
1º Vice-Presidente José Telles Barbosa
2º Vice-Presidente Armando Carreira Lassance
3º Vice-Presidente Mário Alves
Secretário Manuel Pereira Paixão
Tesoureiro Desidério de Oliveira Junior
Diretor de Protocolo Manuel Miguelote Vianna
Diretores Eduardo Luiz Gomes
Antonio Jose Pereira de Barcellos

O Rotary Club de Niterói foi admitido em Rotary International no dia 24 de outubro de 1928 e recebeu o registro de nº. 2.977″

 

(Capa: Boletim mensal “Ciência Política” – órgão oficial do Instituto Nacional de Ciência Política”, fevereiro 1941)

Algumas explicações:

[*1] Antônio Pedro Pimentel (1877-1930), ou Dr. Antônio Pedro, nasceu na Bahia e veio a falecer em Niterói. Destacou-se como médico clínico e como professor universitário. Foi fundador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense e tornou-se patrono do hospital universitário, que leva seu nome (Hospital Universitário Antônio Pedro).

[*2] Armando Carreira Lassance pertenceu à Inspetoria de Estradas Federal e foi um dos fundadores do Clube Central. A primeira sede do Clube foi em sua residência, no Ingá.

[*3] Francisco Bittencourt Silva foi professor e fundador do Gymnasio Bittencourt Silva, extinta instituição de ensino privada de Niterói. Inaugurado em 30 de maio de 1926, o colégio alcançou seu apogeu durante a década de 1950. Fechou suas portas em 1968, por motivo da avançada idade de seu fundador.

[*4] Manuel Miguelote Vianna (1903-1956) foi médico, criou o Instituto Bios, destinado a pesquisas bacteriológicas e fabricação de vacinas, e implantou o Laboratório de Produtos Biológicos do estado.

[*5] Roberto Rowley Mendes (1867-1942?), pintor paisagista e professor na Escola Normal do Rio de Janeiro. Hoje dá nome a uma rua no bairro da Boa Viagem.

 

Divaldo de Aguiar Lopes

Divaldo de Aguiar Lopes

Divaldo de Aguiar Lopes nasceu em Niterói, no centro, na Rua São Pedro, na casa de número 132, em 16 de novembro de 1916. Aqui viveu seus quase 77 anos, vindo a falecer em 6 de julho de 1993.

De formação eclética, Divaldo foi jornalista, professor, historiador, contabilista, meteorologista, museólogo, desenhista, escritor, poeta e advogado.

Estudou Contabilidade na Academia Fluminense de Comércio (1942), bacharelou-se em Museologia pelo Museu Histórico Nacional (1943), em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas do Rio de Janeiro (1946), em Direito pela Faculdade Nacional (1953), e em Meteorologia pela Faculdade do Brasil (1957).

Sua carreira docente foi das mais profícuas: foi professor do Centro Educacional de Niterói, do Colégio Plínio Leite, onde fundou a Biblioteca, do Centro Educacional Floriano Peixoto, da Faculdade Niteroiense de Formação de Professores, da Faculdade de Ciências Econômicas do Estado do Rio de Janeiro, e da Escola Técnica Nacional.

Como jornalista, sua paixão sempre foi Niterói, a cidade e sua gente, dedicando-se com afinco à pesquisa histórica sobre a cidade, divulgando as informações reunidas na imprensa periódica. Em 1946 começou a assinar a Croniqueta da Cidade no jornal O Estado, onde diariamente, por décadas, escreveu sobre o passado e o cotidiano niteroiense. Em 1955 passou a atuar como comentarista no matutino Diário da Manhã, e foi redator-chefe do semanário O Momento Fluminense, onde manteve a coluna História da nossa Cidade. Assinou ainda na revista Guanabara a seção História Fluminense, e no semanário Praia Grande em Revista, a seção Niterói também tem História. No Diário do Comércio assinou a coluna Fragmentos.

Cronista por natureza, sua única publicação em vida, fora dos jornais, foi A Catedral de Niterói, editado pela Imprensa Oficial em 1989, dentro da série Memória Fluminense. Trata-se de um livreto com 29 páginas, reproduzindo uma conferência de Divaldo naquela Catedral, em 1963, homenagem do Grupo Mônaco e do jornal O Prelo, ao velho professor.

Maria José da Silva Fernandes
Bibliotecária
Coordenadora de Acervo Especial
Fundação Biblioteca Nacional

 

 

“Lamúrias de velho”

(Resposta)

Meu caro amigo Osorio, – Saudares.

Li e reli a tua “preciosa” carta. Chorei, funguei, tossi e quase espirrei…

O que a carta contém é a expressão da verdade incontestável.

Nós (aqui entre nós), para nosso uso e que ninguém nos ouça: – somos de facto dois velhos “metralhados”, mas não somos “ranzinzas”. A maledicencia é atrós, chega a inventar que eu e você somos “engraçadinhos…” que besteira…

A nossa “durabilidade”, vem provar que o nosso credito é inabalavel, no Céo, apezar do “deficit” formidável registrado pelo velho Pedro, porteiro de Jesus…

Você está gordo; barrigudo. Eu, é como se vê, esqueletico, com a barriga preza às costas, nem bochechas…

o que fazer, meu amigo? Chorar? Não adeanta.

Nas horas vagas, percorro os pontos da cidade onde na minha endiabrada mocidade fui “gente grande” e assim sendo, domingo ultimo fui à praia de Icarahy, a perola do Oceano. fiquei babando quando vi as ondas mansas escandalosamente beijarem as nymphas que alegremente se banhavam sem receio de perecerem afogadas. Em nosso tempo, o mar, alli, era indelicado com as pobres “sardinhas”, coitadinhas, atirando-as brutalmente de encontro aos grandes castellos de areia que permanceiam mezes e mezes e que desappareciam na época das resacas.

A nossa Praia Grande desappareceu… Aquelle tempo foi-se para nunca mais voltar. Agora é chorar na cama que é lugar quente e andar olhando para a calçada…

Aquele tempo, meu amigo, da tia Felícia fritando fígado alli na Venda da Varanda, onde, hoje é o Café Santa Cruz. Nictheroy era um Paraíso. E um pedaço do tal fígado, maior do que as nossas orelhas, custava a ninharia de tres vintens… quantia de valor apreciavel… n’aquella época…

a velhice é uma doença que não tem cura, mas, nós os velhos que ainda não “bobeamos” nos conformaremos até o dia em que o “passarinho ao pular do relogio” não mais diga “cúcú”, mas, sim, “Cucuia”, que é o mundo que nos espera, para a nossa tranquillidade de alma e de espirito.

E a Maria da Toca, que pescava siry, na praia do Cabaceiro, lembras-te?

E a Leopoldina, a capoeira temível do Largo da Memoria, que manejava bem a navalha, lembras-te?

E o Carnaval, que delicia! O pae João. O cabeça grande. A mãe Maria. O diabinho, que trazia na cauda a navalha. E os cordões que cantavam:

Oh! raio, oh! sol,
Suspende a lua, 
Brasas(?) do velho
Que está na rua

Canção do saudoso Arthur Azevedo. Lembras-te?

E o entrudo?

Tudo foi-se, meu amigo. Hoje, o Carnaval é differente. Batalhas de conffetis sem conffeti, muito barulho… muito barulho e… nada mais.

Finalmente, digo-te que com estas lamurias, minha alma chora o pranto sentido da saudade.

E aqui, meu Osório, termino a presente cacetada em resposta á tua carta que ainda mais me chocou; aproveitando, porém, o ensejo, direi com enthusiasmo e pernas molles – venha de lá um abraço – Carvalhaes.

(Fonte: Jornal O Fluminense, 11/1/1940, 1ª página)

 

carvalhaes-lamurias