“O Imperador na Praia Grande”

“O Imperador na Praia Grande”

“Croniqueta da cidade”, por Divaldo de Aguiar Lopes

O nosso brilhante imperador D. Pedro I, que foi incontestàvelmente uma figura arrebatadora e sem igual nas páginas da nossa história pátria, era um admirador de Niterói. Via, em aquí, um recanto delicioso, já conhecido, (pois cá estivera em 1816, com seu pai), situado a alguns minutos, em galeota, da Côrte, movimentada e repleta de interesseiros, e com a atmosfera quase irrespirável da burocracia, que sufocava o seu irrequieto espírito de homem dinâmico e dado às mais intimoratas atividades.

Na Vila Real da Práia Grande encontrava aprazível e convidativo lugar para refazer-se das fadigas da sua agitada vida política e romântica.

Mesmo assim, às vêzes, se fazia acompanhar da Marquêsa de Santos, o que fôra durante muito tempo ignorado na Côrte, onde para todos os efeitos S. M. estava na Vila, assistindo a exercícios militares no Campo de São Bento…

Em 1824, a pacata povoação começou a movimentar-se, e todos os modestos habitantes não cabiam em si de contentes, pois o príncipe era querido e sempre acolhido com fidalguia. Dessa feita resolvera passar o São João, gozando os aspéctos típicos dêsse festejo de sabor nacional e num cenário que lhe dava verdadeiro romantismo.

E, o passou no prédio situado na Rua da Práia Grande (Visconde do Rio Branco), esquina da do Imperador (Marechal Deodoro) cedido, por gentileza e bajulação de um rico proprietário que não cansava de apregoar êsse fato, que lhes reverteu em conceito, pois não se elevara de um traficante de negros escravos, enriquecido à custa dêsse infame comércio humano, já nessa época considerado repugnante por alguns habitantes da Vila.

Não gostava da alcunha que o povo lhe impusera — “Cheira”. Esta provinha do curioso hábito do avarento cheirar o dinheiro que recebia, como se pudesse reconhecê-lo por um suposto aroma…

O povo comprimiu-se no dia 25 de junho daquele ano, para assistir no Campo de São Bento, o Imperador passar em revista as tropas, sob o comando do general Joaquim Xavier Curado e grande foi o movimento que agitou a Vila, antes silenciosa e bucólica, quando a caminho do local citado; passaram pelas suas ruas mal calçadas as duas brigadas, com infantaria, cavalaria e artilharia.

O príncipe D. Pedro, sob os olhares embasbacados do povo, após assistir algumas demonstrações das tropas, resolveu mostrar com ares napoleônicos, que era bom comandante, e o povo ouviu então a voz vibrante do seu comando, à qual os soldados obedeciam com exatidão e brilho, enquanto sorria jubiloso o General Curado, orgulhoso das suas adestradas tropas.

À tarde, houve em uma barraca especialmente armada para êste fim, um magnífico jantar com pompa de banquete, no qual tomaram parte generais, comandantes de brigadas e a oficialidade.

Como de costume, houve saudações e brindes ao Imperador, à Imperatriz e a tôda dinastia imperial e à “integridade e constituição do Império”. À cada brinde seguia-se uma salva de 21 tiros. Após o repasto, segundo a praxe, houve por bem S. M. dar beija-mão à oficialidade. […]

(Fonte: Jornal Diário do Comércio, 24/7/1956, via Centro de Memória Fluminense)

Foto de capa: D. Pedro I, Simplício Rodrigues de Sá, 1830. Acervo: Museu Imperial de Petrópolis.

 

* Saiba quem foi Divaldo de Aguiar Lopes nesse post.

A reprodução da croniqueta:

 

 

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